Como a fé influencia a sua vida

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A cura de doenças, o sucesso no trabalho, a felicidade no amor, a inspiração das artes, a solução da crise econômica e o sentido da vida podem ser apenas uma questão do acreditar.

Artigo escrito por Edmundo Clairefont para a Revista Galileu.

“Todos de pé.” O padre Anísio Baldessin solta a ordem em direção ao grupo de 11 enfermos distribuídos nas fileiras de bancos à sua frente. Vestidos com aventais azul-claros, pulseiras de plástico com seus nomes e o tipo de sangue atadas ao pulso, três deles não têm força para levantar. Com os olhos cerrados, permanecem quase imóveis em cadeiras de rodas. E começam a rezar, na tentativa de se apegar à vida que insiste em acabar. Todos passaram ou passarão nos próximos dias por delicadíssimos procedimentos cirúrgicos: uma desobstrução coronária, uma intervenção torácica, um transplante. São 11h da manhã de um domingo, e na capela do Instituto do Coração de São Paulo, o InCor, não existe espaço para pequenas esperanças e desejos mundanos. Existe fé, muita fé.1303235_huvudbild-farg-vers2-460px

Desde 2000, mais de 6.000 estudos foram publicados sobre a relação entre religião e saúde

“Comovente, não é?”, diz o capelão de 45 anos após encerrar a missa. “Eles precisam lidar com a doença, com a dor, com a proximidade da morte. E sabe o que eu digo? Eu digo que rezar ajuda. Não tem milagre aqui, mas tem conforto, apoio e esperança. E você percebeu como eles saíram mais tranquilos, confortáveis, agradecidos?”

Há 17 anos percorrendo todos os dias as alas do complexo do Hospital das Clínicas, onde fica o InCor, o padre participa de um dos raros momentos em que religião e ciência afastam suas diferenças para concordar: ter fé faz bem à saúde. Católicos, judeus, hindus, espíritas, budistas, evangélicos, agnósticos… Não importa a religião – ou a falta de. Basta crer.

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Pessoas que praticam meditação (processo semelhante a uma oração profunda) por um período superior a 15 anos têm os lobos frontais exercitados. O melhor funcionamento dessa região cerebral ajuda a aperfeiçoar a memória

De 2000 para cá, mais de 6.000 trabalhos sobre o tema foram publicados nos Estados Unidos. São documentos que professam o poder da crença e do auxílio religioso sobre a saúde combalida. Lançam dados impressionantes, como um estudo da Universidade de Pittsburgh que mostra o aumento de três anos na expectativa de vida de quem frequenta a igreja. Ou outro que aposta na redução dos níveis de cortisol, o hormônio associado ao estresse, em indivíduos religiosos. Pessoas que praticam meditação, processo físico semelhante ao da oração profunda, colocam para funcionar uma região do cérebro chamada de lobo frontal, conhecida também por aprimorar a memória.

No Canadá, cientistas da Universidade de Toronto afirmam que acreditar em Deus reduz a ansiedade. Uma pesquisa comandada pela Universidade de Miami sinalizou que portadores do HIV com alguma crença espiritual apresentam níveis maiores das células de imunidade CD4.

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“Aquele que tem ciência e arte tem também religião; o que não tem nenhuma delas que tenha religião!”
Goethe, escritor (1832)

São trabalhos controversos. A oposição científica, religiosa e intelectual atira seus dardos em direção a questões éticas, à validade e aos procedimentos utilizados. Tenta pôr em xeque a união da medicina e da religião. Alerta para a redução da fé a processos químicos e impulsos elétricos. Questiona a utilidade de conectar duas áreas que correm separadas, porque atendem a ramos distintos da experiência humana. E pergunta: o.k., são lindas as imagens do cérebro ativado por uma oração profunda. Mas o que queremos com isso? Que utilidade terá para a medicina saber que uma parte da nossa massa cinzenta pisca quando rezamos?

TER FÉ É COISA DA SUA CABEÇA

O mapeamento da atividade cerebral durante a experiência religiosa foi o ponto de partida para as conclusões registradas por Andrew Newberg, professor de radiologia, psicologia e estudos religiosos da Universidade da Pensilvânia, no livro Why God Won’t Go Away (Por que Deus Não Vai Embora, inédito no Brasil).

“Deus é um conceito
com o qual medimos a nossa dor
Eu não acredito em
mágica

Eu não acredito em I-Ching
Eu não acredito na Bíblia
Eu não acredito em tarô
Eu não acredito em Hitler
Eu não acredito em Jesus
Eu não acredito em Kennedy
Eu não acredito em Buda
Eu não acredito em mantra
Eu não acredito em Gita
Eu não acredito em ioga
Eu não acredito em reis
Eu não acredito em Elvis
Eu não acredito em Beatles
Eu só acredito em mim.
Em Yoko e em mim.
E essa é a realidade
O sonho acabou.
O que eu posso dizer?

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John Lennon, músico (1970)

Ele reuniu um grupo de freiras franciscanas e monges tibetanos e analisou como o cérebro desses indivíduos reagia durante os períodos de reza e profunda concentração. Notou um aumento na atividade do lobo frontal e uma redução na do lobo parietal, área que comanda a orientação espacial. Esse fenômeno seria a origem das sensações divinas, extracorporais.

O professor sugere que o corpo humano estaria equipado para a religião. “Esses mecanismos foram adotados durante a evolução. As crenças e atos religiosos seriam benéficos para o organismo”, diz ele no livro. A fé acabaria responsável por formar grupos, minorar o isolamento e disseminar hábitos positivos. Ou seja, colocar um pouco de ordem na sociedade.

Uma pesquisa da Universidade de Miami sinalizou: portadores do vírus HIV que afirmam ter uma crença espiritual apresentam níveis maiores das células de imunidade CD4.

Comparar-se a um ser superior, ser feito a sua imagem e semelhança, teria inevitáveis e vantajosas consequências no jeito com que o homem se enxerga no espelho e dentro do mundo. Em como ele resiste aos anos, ao trabalho, aos perigos físicos, às dores da alma e do corpo. Uma longa lista de questionáveis e não questionáveis benesses comportamentais e existenciais parte dessa linha de pensamento.

METADE DOS ANALGÉSICOS

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O pastor João Silvio Rocha, de 44 anos, é capelão do Hospital das Clínicas de Campinas, no interior de São Paulo. Na companhia de um padre residente, João passa o dia visitando entre 20 e 25 pacientes em seus leitos.

A Universidade de Duke reuniu 595 doentes, todos com mais de 55 anos e religiosos, e lhes perguntou se sua condição era uma “punição de Deus”. No grupo dos que acreditavam na ideia do castigo divino, a taxa de mortalidade foi 28% maior

Ele diz que, além de contar com a simpatia dos médicos, a sua presença traz uma sensível melhora no humor e na disposição dos enfermos. Houve uma vez em que o pastor e o padre foram até o setor de oncologia. Era dia de celebrar aniversários, comer bolo, tomar refrigerante e suco. Os dois falaram com os doentes e distribuíram bênçãos. Ao final, rezaram todos.

Na tarde seguinte, uma enfermeira fez chegar ao ouvido dos dois: “Depois que vocês visitam os pacientes aquilo vira um silêncio, uma tranquilidade. Usamos metade dos analgésicos de um dia comum”.

A Universidade de Duke fez outra pesquisa: mediu o índice de interleucina-6 (uma proteína associada ao funcionamento do sistema imunológico) em um grupo de pessoas. O nível da substância foi maior entre aqueles que mantinham hábitos religiosos. Ou seja: a resistência a doenças era maior

Professor de medicina comportamental da Universidade de Columbia, nos EUA, o psiquiatra Richard Sloan explica que esse tipo de percepção é dúbia. “A experiência da enfermeira é puramente casual”, afirma.

Sloan lançou no ano passado o livro Blind Faith: The Unholy Alliance of Religion and Medicine (Fé Cega: A Profana Aliança entre a Religião e a Medicina, inédito no Brasil), em que compilou os porquês e os senões de tratar a crença do paciente como uma ferramenta medicinal.

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“Três quartos das demandas existentes no mundo são românticas; baseadas em visões, idealismos, esperanças e afeições; e a regulagem da bolsa é, em essência, a regulagem da imaginação e do coração.”
John Ruskin, crítico de arte (1862)

“Na neurologia não existe nada que prove que rezar cure mais que qualquer outro tipo de estímulo cerebral positivo”, diz a neurologista Elizabeth Quagliato, professora da Faculdade de Medicina da Unicamp.

“Não se trata de afirmar que a religião pode ou não pode ser fisicamente boa. Claro que ela é. Ela nos deixa mais serenos, diminui a ansiedade e a tensão em situações extremas como as que se vive em um hospital. Mas, nesse sentido, ela funciona como mais um entre tantos outros estímulos que o cérebro recebe o tempo inteiro. E religião não é só isso. Quem não é religioso também se cura.”

“Eu estou convencido de que a partir de 2010 essa crise já será coisa do passado aqui e em outros países.”
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da república (2008)

“A crise não está nem perto do fim.”
Bruce Scott, Economista (2009)

OBAMA E A ECONOMIA DA FÉ

Não há a menor chance de negar que o planeta vive a marola de uma crise. Quando o novo presidente dos Estados Unidos Barack Obama pede fé na recuperação do mercado financeiro, ele personifica e atrai expressões de crença política, ideológica e econômica. O espectro que paira sobre seu governo é curioso.

A edição 583 da revista Amazing Spider Man trouxe o político como estrela de uma aventura do Homem-Aranha. Sua aparição na aventura de cinco páginas fez com que o título liderasse em janeiro o mercado americano de quadrinhos. As vendas escalaram o teto dos 350 mil exemplares, o melhor desempenho do gibi em 15 anos.

Estudo da Universidade de Toronto, no Canadá, afirma que acreditar em Deus reduz o estresse e a ansiedade.

Imagens das reações cerebrais diante de situações de tensão mostravam nos ateus maior atividade do córtex cingulado anterior. A região libera sinais para que o comportamento seja alterado. Conclusão: quem acredita em Deus é mais tranquilo ao processar esses estímulos e reage a um erro com menos urgência

No dia de sua posse, 1,8 milhão de pessoas compareceram ao memorial a Abraham Lincoln, em Washington. A multidão, que superou o 1,2 milhão de pessoas que Lyndon Johnson reuniu em 1965, enfrentou os 3 0C negativos porque acredita em Obama. Gente que foi ouvi-lo “agradecer a confiança depositada em mim”. Gente que crê no democrata para soprar “as nuvens acumuladas e as tempestades assoladoras do porvir”.

E quando ele promete combater “o enfraquecimento da confiança em nosso país” – um medo angustiante de que o declínio da América seja inevitável e de que a próxima geração seja obrigada a reduzir suas expectativas -, o que ele diz é que “estamos reunidos neste dia porque optamos pela esperança em lugar do medo”.

No Brasil, a Fundação Getulio Vargas é a responsável por colher e compilar dados como o Índice de Confiança do Consumidor. A sondagem chegou em fevereiro a seu menor nível desde 2005, com 94,6 pontos.

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  • Doentes internados que dizem ter fé apresentam o organismo com presença reduzida de cortisol, o hormônio associado ao estresse.
  • Uma menor concentração da substância diminui a pressão sanguínea, estimula a imunidade e regula o nível de açúcar no sangue.
  • A Universidade de Indiana fez levantamento em um centro de oncologia e ouviu de 75% dos pacientes que “É muito útil” quando os médicos conversam com eles sobre questões religiosas.

“Esse indicador captura a crença de que a economia vai melhorar ou piorar. É um índice estritamente subjetivo, que mesura percepções”, diz o economista da casa, Marcos Fernandes. “O funcionamento disso é curioso. Quando os dados são negativos, os agentes do mercado perdem confiança. A economia, sem o crédito do mercado, retrai ainda mais. O consumidor vê isso e faz o quê? Descrê. Um tempo de crise apresenta esse efeito alimentador.”

Se o mercado, desconfiado, desaquece a economia, que desanima a confiança do consumidor, que esfria o mercado novamente, o que encerra o ciclo? O que faz com que as pessoas vejam o túnel, a luz e a saída? “Você quer a resposta que os economistas acreditam ter? Ninguém sabe. Nem eles.”

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“Eu estou pedindo que vocês acreditem. Não apenas na minha habilidade de promover mudanças reais em Washington. Eu estou pedindo que vocês acreditem em si mesmos.”
(Barack Obama, presidente dos EUA)

O que Marcos Fernandes sabe é que um fiapo, uma pequena melhora num indicador, o desempenho mais fresco de algum setor, uma frase de um presidente ou de um ministro pode iniciar a reversão. “E isso não quer dizer que não haja dados, lógica ou ciência na economia. Mas ela funciona, de certa forma, como um organismo. Existem coisas ponderáveis, fixas, e existem variantes, o imprevisível. A fé entra aí”, afirma.

E é a crença que move empreendedores. Um componente que estimula arriscar, tentar o que não foi feito. No saldo, resulta em novas tecnologias e em novos produtos. Em oferta e venda. “Essas pessoas não são loucas. Elas têm dados, informações. Mas, num organismo complexo, há uma quantidade enorme de elementos. E o que permite alguém definir, acreditar qual será o seu caminho nele, é a fé. Nesse sentido, ela é muito positiva. Faz girar a engrenagem da economia.”

O QUE A CIÊNCIA QUER?
Richard P. Sloan, psiquiatra da universidade de Columbia

“Se pegarmos a colossal quantidade de estudos sobre a aproximação da religião com a medicina, dá para dizer de cara que a maioria é pobre em rigor científico. Outro ponto fácil de notar é que muitos deles foram divulgados em publicações com pouquíssimo lastro, de modo que não merecem muita consideração.Mesmo assim, alguns desses trabalhos andam sendo bastante comentados, discutidos. Revistas e jornais do mundo inteiro têm dedicado várias de suas páginas a explorar o tema. É impossível num espaço pequeno analisar cada um deles.As questões sobre a relação entre ciência e crença eu aprofundo em meu último livro. Em linhas gerais, o que se vê são resultados inconclusivos e suposições. Não existem pesquisas sistemáticas que mostrem, por exemplo, que as atividades de um padre, ou de outra figura religiosa, tenham algum efeito real de cura na saúde física. A religião pode ajudar a superar um desconforto, a lidar com um momento difícil. E daí acontecer de os pacientes se sentirem melhores, mais confiantes. O problema é que isso não é o mesmo que dizer que existe uma influência física entre rezar e se curar.

Outro tema: quando vejo as imagens do cérebro em atividade durante uma oração profunda, eu olho lindas figuras. O que não vejo é muito sentido em obter essas lindas figuras. Gostaria de entender, precisamente, o que de importante é observado ou aprendido com esse tipo de pesquisa? O que tiramos? O que nos ensina? E como isso se aplica à medicina, à ciência?”


A CRENÇA NO TRABALHO
O pesquisador Tiago Fuzaro e a professora Elaine Prodócimo, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, foram aos números, à prancheta e a um time de futebol profissional feminino para peneirar como a fé se infiltra na formação de relações sociais.

“Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro, em vão, não sê-lo. Creio que as paralelas se encontram nos paralelepípedos.”
Millôr Fernandes, escritor (1968)

Questionadas se eram religiosas, e observadas de perto, as atletas forneceram informações de como exibir uma crença, ou a falta dela, é agente determinante da rotina, das amizades e do desempenho no trabalho.

“As pessoas utilizam a religião como fundamento para definirem sua posição dentro de um grupo”, afirma a professora. “Na equipe que estudamos, a maioria era assumidamente religiosa. Notamos a rejeição em relação às que se disseram ateias, mesmo que não inteiramente ditada por questões práticas, como talento e liderança.”

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“Quando meu amor jura que ela é feita da verdade, acredito, sim, no que diz, embora saiba que está mentindo.”
Shakespeare, dramaturgo (1609)

Diante de problemas que ficam mais evidentes sob a pressão dos jogos, o estudo mostrou que compartilhar um credo era atalho para esmagar os atritos internos e engordar a confiança nas habilidades da companheira.

“Tentamos responder se uma jogadora poderia ser preferida pelas suas parceiras por causa de atitudes que indiretamente demonstram fé. E quais características positivas e negativas eram atribuídas a elas”, diz.

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“Só sei que nada sei.”
Sócrates, filósofo

“A empatia que se forma naturalmente com aquelas que dividiam uma crença se traduzia num ambiente de trabalho mais tranquilo. Elas eram classificadas de ‘companheiras’, ‘pacientes’ e ‘fiéis’. Já as atletas do grupo minoritário apresentavam mais problemas para realizar as mesmas tarefas. Eram ‘falsas’, ‘arrogantes’ e ‘egoístas’.”

ESTALOS DE ARTE

O escritor e satírico americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu em 1924 algumas ideias que demonstram a tautologia por trás da palavra fé. Não acreditar em nada é acreditar que não acredita em nada. E isso é ter uma fé. “Já entrei em igrejas mais de uma vez, procurando sinceramente sentir o estalo de que tanto falam os religiosos. Mas nem mesmo na Catedral de São Pedro, em Roma, experimentei o mínimo sintoma. O máximo, no mais solene momento, foi um deleite sensual por sua beleza – um deleite exatamente igual ao que me invade quando ouço Tristão e Isolda, de Wagner, ou a Quarta Sinfonia de Brahms. Os efeitos de tais músicas são, na realidade, mais agudos que o da liturgia, mas só porque Brahms e Wagner me comovem mais poderosamente que os santos.”

Estudo da Universidade de Pittsburgh indica que pessoas que frequentam igrejas vivem 2 a 3 anos a mais que aqueles que não declaram hábitos religiosos. O mesmo trabalho exibe uma comparação: praticar exercícios aumenta a expectativa de vida de 3 a 5 anos

Nas artes, o ato de depositar total crédito em algo ou alguém é um motor potente. A música que convocou os estalos de Mencken foi capaz de sustentar outros movimentos. Não é possível pensar no punk sem adicionar uma colher de crença política, mesmo que em uma anarquia fajuta. Tampouco revistar o rock psicodélico dos anos 60 sem encontrar em seu bolso a confiança absoluta de que certas fumaças e substâncias químicas eram a porta para outro tipo de percepção da realidade. Ou ainda mergulhar até o pescoço nas ondas da bossa nova sem acreditar no amor eterno de um Vinicius de Moraes.

  • 92,6% dos brasileiros disseram ao Censo de 2000 que são religiosos. A expectativa de vida no País é de 71,71 anos
  • 85% dos suecos não acreditam em Deus, mostra estudo do sociólogo Phil Zuckerman, autor do livro Invitation to the Sociology of Religion (Convite à Sociologia da Religião). A expectativa de vida no país é de 80,74 anos

“A fé não é uma abstração”, afirma o historiador da Unicamp Leandro Karnal. “É uma expressão muito concreta que produz coisas reais. Produz fatos econômicos, arquitetura e arte. Produz relações sociais, felicidade e infelicidade. É um fenômeno riquíssimo. Trabalhar com a fé é trabalhar com uma das questões mais complexas e importantes da história humana.”

Um contraponto ao texto:

“EU NÃO ACREDITO NESSAS REPORTAGENS…

…e acho uma bobagem a maioria dos estudos que querem dizer que a fé religiosa ajuda a curar. É misturar alhos com bugalhos. Há diversos pontos fracos nos levantamentos dessas universidades, na confusão de conceitos que pesquisadores e revistas espalham ao tomar a palavra fé.Como entrar com as ferramentas da ciência, que trabalha num campo de comprovação, em uma área que simplesmente despreza provas? Vamos imaginar o seguinte: pegue a fé em Deus. Um sujeito que crê nisso. Na cabine ao lado, vamos trancar alguém confiante em si, que tem fé em sua capacidade. E daí, digamos que consigamos estimular, de algum jeito, um sujeito para ‘crer mais em Deus’ e o outro para ‘ser mais confiante’.Agora, imagina que esse sujeito confiante apresenta qualquer tipo de vantagem sobre o cara da cabine que acredita em Deus. A gente conclui o quê? Levantamos a hipótese de que uma ‘dose maior de confiança em si’ é melhor do que uma ‘dose a mais de Deus’? Não faz sentido. Como damos uma dose a mais dessas coisas?

Sabe o que a ciência pode fazer por nós? Ela pode ser mais modesta e aceitar que não entendemos zilhões de coisas. Essa fé grandiosa, a religião, exige uma humildade para dizer que ‘não sei nada’. O sujeito só sabe que confia Nele. Ele suspende o intelecto. Implica dizer ‘eu não vou discutir isso. Eu creio’. Simplesmente não estamos equipados para lidar com essa enormidade de questões.

É preciso deixar claro que esse acreditar na religião é totalmente diferente da fé na economia, ou numa arte, num time de futebol, numa corrente política, na ciência. É um erro básico misturar. E se a gente tentar descascar infinitas áreas, obviamente vai ficar nisso para sempre. Nossas relações dependem de confiança, de acreditar. Quando conhecemos alguém e iniciamos uma conversa, é uma fé espontânea. Precisamos crer no que estamos falando e no que estamos ouvindo. Ou a gente não se comunica e passamos a viver embebidos em fé.

Mas acho triste e perigosa a mescla de reflexões que fazem. Definitivamente, religião e ciência transitam em territórios distintos. Forçar os limites para encontrar uma explicação em algo que, por princípio, não precisa de uma me parece um indiscutível exercício de perder tempo.”
Antônio Flávio Pierucci, professor de sociologia da religião na USP

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2 comentários

  1. Áurea Responder

    Meus Caros,

    Ando pensando na tríade AMOR (CARIDADE), FÉ E ESPERANÇA. Quero entender melhor, principalmente, a questão da esperança. Seria maravilhoso se vocês, com esta bela capacidade de sintese me dessem uma ajudazinha.
    Obrigadissima pela ajuda para melhor entendimento da fé.

  2. Arthur Fernando Responder

    Nossa…complexo…preciso ler e reler…mas só sei que a fé pra mim é ir além sem ter caminhado ainda.